Posts filed under 'Indígenas'

Viagem Boa Vista x Manaus

Estou indo para Manaus de carro. É a primeira vez que faço esta viagem, que, de acordo com o mapa, rasga a Amazônia, saindo do lavrado roraimense para a região de floresta fechada, cruzando rios magistrais e terras indígenas, e atravessando a linha do Equador.

A estrada é boa e a viagem, de mais de 700km corre tranqüila. Só tem uma coisa errada. Logo me vem a mente a mesma sensação que tinha quando viajava de Redenção a Belém (e que, por me deprimir um pouco, nunca enviei aos amigos)… onde está a floresta? Na medida que escurece percebo que a vegetação começa a se formar. Já vão dar seis horas quando vejo as primeiras árvores maiores, que prenunciam a entrada na área indígena Waimiri-Atroari. Seguimos, passando por um posto de controle da receita estadual e… não podemos seguir. Nosso direito de ir e vir é impedido, pois na área indígena, ninguém circula depois das seis horas da tarde – salvo ônibus e caminhões com carga perecível.

Não vou mentir. Fiquei bravo, sensação que só passou no dia seguinte, quando r etomei a estrada e percebi que as restrições tem motivo de ser. Esta é a única região da estrada onde a floresta vem nos visitar, e árvores altivas margeiam a pista nos dois lados. No caminho cruzamos igarapés, uma passarela natural de macacos (identificada por placas, e onde as copas das árvores dos dois lados da estrada se abraçam gentilmente) e muitas placas alertando para termos cuidados com animais e para o fato de estarmos em área indígena, não podendo parar.

IMG_2441 IMG_2442 Trecho onde as árvores da floresta de ambos os lados da estrada se abraçam, formando a “passarela” para os macacos.

Outra placa, constantemente atualizada indica o número de animais atropelados por ali até aquele mês. Quando passamos, a cifra beirava as 5000 vítimas, por si só um bom motivo para que não haja circulação de carros a noite, quando os animais saem de suas tocas.

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Ao fim da reserva, onde devido as chuvas que acontecem diariamente devido a floresta tornam a estrada esburacada e de direção lenta, encontramos novamente com a estrada careca. As árvores se despediram de nós, dando a certeza de que, apenas sob os cuidados dos indígenas a Amazônia se manteve neste trecho.

IMG_2428   A floresta segue ao lado da estrada dentro da Reserva, como em nenhum outro trecho da Estrada. Favorecido pela vegetação, a maior umidade proporciona um maior índice pluviométrico… aí, veja o que acontece com o terreno da rodovia…

1 comment 31 Outubro, 2009

História de terror indígena no hospital

Nossa ignorância por vezes é cruel com os indígenas que devemos socorrer. Recentemente, para nossa alegria, um pequeno curumim teve alta da UTI. Como já contei, até estarem grandes as crianças dos grupos Yanomami não tem nomes, assim são registrados no hospital como Filho de… ou Filha de… Assim, lá fomos nós chamar a Cecília que estava na CASAI (Casa do Índio), esperando a melhora do seu filho. A Casai enviou a mãe e, para nossa surpresa ela não queria amamentar o pequeno. Achamos que era devido a longa permanência na UTI, mas a mãe se recusava. Após muito gestual para cá, falas não compreensíveis de ambos os lados e mais gestuais para lá, entendemos apenas ela dizer Casai, Casai, Curumim Casai. A criança ainda estava debilitada, então não poderíamos mandá-la ainda de volta para a Casai, como a mãe parecia nos solicitar. No meio deste trabalho de convencimento, nada da mãe querer amamentar. Já um pouco impacientes, alguns profissionais brigavam, resmungavam e todos concordavam que era uma lástima o comportamento da mãe, que nas poucas vezes que concordou em colocar a criança ao seio, já sob muita pressão, ela imediatamente lavava a mama e fazia cara de nojo. Por todo domingo isto aconteceu e a equipe contava os minutos para e chegada da tradutora da coordenação indígena na segunda-feira, para tentar convencer a mãe a mudar este comportamento.

Finalmente chega a segunda-feira e com ela a Geralda, que nos seus mais de 20 anos de convívio com os Yanomami já ganhou até oferta para ser trocada por trabalho para ficar como esposa de um tuchaua (cacique). Ela começa a falar com a mãe e… Aquela não era Cecília. Era Ceciça. Seu filho estava na Casai, certamente sentindo falta da mãe por todo domingo, enquanto Cecília continuava na Casai, com certeza ainda preocupada com seu filho na UTI…

Sem comentários…

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A gente até que tenta amenizar…
Uma doutora da alegria tenta distrair a pequena indiazinha.

Add comment 23 Outubro, 2009

Impressões na Brasileiros: Questão indígena, onde a terra é muito mais do que território

Amigos, um pequeno texto meu saiu na seção de cartas da revista Brasileiros. É um texto que fala da situação indígena e que resolvi compartilhar com vocês. Recomendo ainda a Brasileiros, revista de excelente padrão, e a que considero a melhor revista mensal do Brasil. Sempre interessante e inteligente.

tomze

Tenho acompanhado na Brasileiros alguns textos que tratam de forma abrangente e imparcial (como é próprio à Revista) a questão indígena, como o excelente artigo sobre a “briga de foice” entre arrozeiros e indígenas de Roraima, onde vivo há um ano. Na edição 23, li também sobre a questão da segurança alimentar, abordada no inquietante filme Garapa. Proponho agora a junção dos dois temas, pois a insegurança alimentar é realidade para a grande maioria das populações indígenas. As duas questões se encontram no final do texto de Ricardo Kotscho: “… e fico pensando como é difícil ajudar os outros, quando uma família chega a essa situação de miséria, em que a fome não é só de comida, mas a carência de tudo, a absoluta falta de perspectivas. Crianças andando descalças, algumas seminuas, que dormem amontoadas nas três redes da casa ou pelo chão e fazem suas necessidades no mato, caminhando sobre o lixo espalhado pelo quintal, onde dorme um cachorro miúdo e magro de doer”. Pois imaginem que muitos indígenas passam exatamente por essa situação e, em algumas etnias, as crianças menores de cinco anos com baixo peso chegam a mais de 30% da população. E tudo isso somado ao fato de viverem em outro mundo, culturalmente distinto do que vivem os demais brasileiros. E que seu mundo desmorona a seu redor em velocidade assustadora. Seu avô só viu um não indígena no final da infância. Seu pai passou a juventude lutando para deter os invasores de sua terra. Seus filhos, sem caça ou pesca, comem arroz e bolacha; sem identidade, não conseguem ser reconhecidos pela nação que os tutela, sem recursos perambulam pelas cidades vendendo artesanato ou pedindo dinheiro ou comida. Sem dignidade, seus mitos perdem a força de coesão social, seus líderes já não os conduzem e seus pajés não conseguem tratar corpo ou alma. Envolvidos por uma sociedade mais forte, dominadora, esmagadora, a vergonha de ser diferente, de ser quem é, torna-se cada dia mais comum. Em diferentes períodos, este é o drama que viveram ou vivem as diferentes etnias do Brasil. Para eles, que é diferente para nós, a terra não representa riqueza, pois não pertence nunca a um indivíduo. A terra representa sua vida, seus lugares sagrados, sua fonte de alimentação, sua água pura, seu abrigo. Para isso, precisam de espaço onde os animais possam viver, de rios não contaminados e de liberdade para viver do seu jeito, em seu ritmo próprio. Precisam de espaço onde suas vozes se façam ouvir, seus deuses permaneçam fortes e seus corpos alimentados. Afinal, índio sem terra, não deixa de ser índio, mas, com certeza, não é mais índio por inteiro.
Altamiro Vilhena, médico pediatra, trabalhando desde 2005 com povos indígenas, Boa Vista (RR)

4 comments 2 Outubro, 2009

Raposa Serra do Sol – Área de Conflito

Hoje já em paz, após a confusão por conta da demarcação, a Raposa Serra do Sol é uma terra totalmente demarcada e homologada. Há municípios inteiros, como Normandia, dentro da área, e o acesso até estas áreas é permitido. Ao longo do caminho encontramos placas que deixam claro onde estamos.

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Add comment 25 Setembro, 2009

Pukararankre… imagens da beira do Xingu

Estou em Pukararankre, visitando a segunda aldeia em uma sequencia de três e estou muito feliz. Esta aldeia tem pouco contato com a população branca, fica a beira do Rio Xingu, e só se chega de barco ou avião. Logo no desembarque somos cercados por criancas que como formiguinhas levam todas nossas coisas, esperando como recompensa “caramera” ou seja, balas ou caramelos.

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A tarde foi tudo que sonhava quando viajei para o norte. Atendia uma família com 6 criancas, todos pintados e enfeitados. Lá fora um arco-íris enfeitava o céu no encontro de céu cinza e luz do sol. Belo cenário para um encontro de duas culturas tão diversas. Palavras não são suficientes para descrever o que senti, mas espero que possam ter certeza de que, mesmo sabendo que estamos sempre com Deus, em certos momentos não temos dúvida de estarmos imersos em Sua Plenitude, imersos em Felicidade.

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1 comment 12 Agosto, 2009

Brinquedos das crianças Kaiapó

As crianças tem brinquedos de madeira interessantes, tudo feito pelas mãos hábeis de um pai ou avô. Já vi caminhõezinhos e hoje vi um mátko (avião) de brinquedo. Além dele os meninos vieram com arcos e flechas, empolgados, verdadeiros caçadores. Assim que se aprende. Há pouco tempo li que os Kanamary do Amazonas, que vivem dentro da Terra Indígena do Vale do Javari passam por um grande problema: tem caça farta mas não sabem mais usar arco e flecha. Como não tem dinheiro para comprar cartuchos de espingardas, este é um motivo de dificuldade alimentar, mesmo com tanta fartura ao redor.

O mais engraçado hoje foi um menino com um grande ursão de pelúcia. Era quase do tamanho da criança que sorria feliz. Enquanto ele era pesado e medido, o avô segurava o ursão com um carinho que deixava em dúvidas de quem era realmente o brinquedo.

aaa De quem é o ursão?

Outras brincadeiras que já encontrei por aqui são a cama de gato, aquele jogo de trançar fios em duplas, com as mãos, que se chama kadjót e a amarelona. Amarelona? Sim, é uma amarelinha com mais quadrados do que usamos, e que, entre as dificuldades estão andar entre os quadrados… de ponta-cabeça! Plantando bananeira!!!

08 02 Kendjan (39) Criança brincando de “kadjot”

2 comments 11 Agosto, 2009

Aldeia Kendjan – Kaiapós na beira do rio Iriri

S 07º 15’ 58,3’’
W 50º 50’ 42,6’’

Mais uma vez voando, desta vez para a Aldeia Kendjan, a mais distante, já no município de Altamira (o maior município do Brasil e do mundo em área geográfica). No caminho, muita chuva e o avião sacode, sacode. Sempre fico admirado com a força da natureza, de uma beleza ímpar em sua força sem igual. Fico sossegado pela calma dos pilotos, afinal, em plena tempestade o piloto fica só controlando o GPS, sem nem segurar o manche. Todos fazem isso quando estamos mais preocupados. Sossego total.

Kendjan está em uma região linda, com uma linda pedra perto da pista. Para quem gosta de montanha, uma tentação para subir lá. Adoraria ter tempo para isso.

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Add comment 9 Agosto, 2009

Noite entre mascarados

Segunda noite em Kriny. Realmente não tem botão de desligar nos índios, e esta noite cantaram a noite inteira. Por volta das três da manhã resolveram dançar nas portas das casas, vestidos com uma roupa de palha de buriti. Assim tínhamos o canto, a batida dos pés e a palha sacudindo. Além disso, como estamos em um vale, tem eco o que aumenta a sonoridade… haja canto!! E sem o botão do desliga!!!

Pela manhã vejo as grandes máscaras de palha. que foram usadas na dança e aprendi que haviam dois dançarinos “profissionais”. Não há revezamento, eles dançam e cantam a noite toda.

Add comment 9 Agosto, 2009

A primeira reunião na Casa do Guerreiro a gente nunca esquece

Participei de minha primeira reunião na Casa do Guerreiro. A reunião se reveste de formalidade, havendo inclusive um mestre de cerimônias, que apresenta as pessoas e faz as traduções. Ele é o primeiro a falar, depois fala o cacique, as mulheres, alguns líderes e por fim nós. Depois de cada frase o tradutor passa a comunidade o que tentamos dizer, o que sempre é escutado com atenção e olhares de aprovação. Eles parecem realmente felizes com a nossa presença.

O agente de saúde fotografou para mim enquanto eu participava do protocolo. O Bajkare tem uma filmadora e pegou rapidamente o jeito, o que muito me surpreendeu. Com as crianças, o de sempre… elas amam ser fotografadas e fazem tudo para aparecer uma, duas, várias vezes. O mais engraçado são as meninas. Quando eu vou mostrando as fotos delas, elas riem, mas quando as fotos são dos outros ou da aldeia, expressam em coro… “aahhh!!!”, “aahhh!!!”, “aahhh!!!”… é muito engraçado.

Add comment 4 Agosto, 2009

Artistas na aldeia

A técnica não muda muito. Fura-se pequenas sementes, prende tudo em um cordão de fibras vegetais e… enfeite pronto. Mas agora a modernidade toma conta, e uma furadeira acionada com o pé com energia vindo de uma placa solar garante a velocidade nos trabalhos na aldeia.

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Bacia de urucum, pronto para a pintura dos rostos e pés.

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Fotos na aldeia Kriny.

Add comment 1 Agosto, 2009

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