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Viajandão: El Bicho Latino visita Boa Vista
Volta e meia escutamos falar de gente que largou tudo para viver o sonho de dar a volta ao mundo ou viver viajando.
Uns vão de barco, outros de avião. Matu e Shanti vão de caminhão. Um caminhão bem diferente, é verdade. Usando os termos de hoje, um caminhão customizado: colorido, ou melhor, multicolorido. Suas laterais são repletos de fotos e anúncios de lugares onde o casal esteve acompanhado da cadelinha Yaiza e sua filha Zaina, nascida em plena selva tropical do Equador.
Matu é fotógrafo argentino. Shanti é belga. Os dois saíram da Patagônia Argentina em 2005 e desde então estão na estrada. Sem destino definido, vivendo em um tempo próprio, só deles. Desertos? Eles suaram. Oceanos? Mergulharam. Florestas? Pedalaram. Em cada recanto deste nosso continente eles já venderam postais e chaveiros, fotografaram e conheceram gente de tudo que é tipo. Para aumentar os recursos, sempre limitados, o próprio caminhão é um out-door que leva em sua traseira, pintado em letras bem chamativas: “ Venimos de Patagonia. Queremos llegar a Mexico. Nos ayuda com pañales o un plato de comida, por favor?” Ou seja… toda ajuda é bem vinda para que eles possam se manter mais tempo na estrada. E o caminhão, que tem até nome: El Bicho, chama atenção mesmo.
No tempo que conversava com o casal e comprava meus postais, pararam diversos carros, principalmente jeeps e pick-ups. Todos com aquele jeito de gente que sonha em um dia fazer a mesma coisa, mas que, embora possa achar que “dinheiro sem tempo significa estupidez”, acha também que “tempo sem dinheiro significa falência”. Mas será que é mesmo falência? Ou será que pode ser uma forma diferente de começar a enxergar o mundo?
Olha o El Bicho todo enfeitado.
Eu posando de frente do Caminhão Casa
Close no lateral e na traseira do El Bicho, que além de casa é suporte de bicicleta, outdoor e pedido de ajuda.
Add comment 22 Outubro, 2009
Mais nomes diferentes – Escolha o seu nome!
Continuo apaixonado por nomes. Atendi uma criança ontem com um nome muito legal. Chamava-se Irainara Lua de Apiau. Perguntei ao pai o porque do nome e ele me contou que ela havia nascido quando ele, que é bombeiro, estava apagando um incêndio as margens do Rio Apiau, e mesmo com toda fumaça, todo trabalho havia uma linda lua cheia sobre o rio. Daí o nome. Bacana, não?
Atendi também outros nomes diferentes:
a) dos Yanomami: Pleixoma, Pebetinho, Neguinha, Doutora, Princesa, Macuxi Yanomami (o nome dele é o nome da outra etnia), Esboliça, Pinóquio e Xakison.
b) não indígenas: Wenissio, Alleoname Dulce, Maer Salasbaz.
Podem escolher!
1 comment 3 Setembro, 2009
Personagens Amazônicos: O Profeta da Pas
Se os cariocas tinham o Gentileza, o profeta que pregava o Amor nas ruas do Rio, Boa Vista tem o profeta da Pas (com esse mesmo). O nome com que se apresenta, é até difícil de guardar, e ele mostra tatuado no braço esquerdo – “do coração”: Deeus Ommy Geezus – O Profeta da Pas.
Logo que cheguei em Boa Vista, encontrei o profeta andando pelas ruas do centro. Sempre com uma roupa branca com várias frases escritas no que chama de “português correto” – “É sempre como se fala, e não como se quer”, acompanhado por um violão elétrico e com um sorriso cativante emoldurado por sua careca morena e por uma barbicha fina, que lembra tanto um monge chinês quanto um bode adolescente.
O encontro é fácil, a fala é agradável, as boas vindas com um beijo em nossa mão e a declaração: “eu te amo”. O profeta gosta de conversa e logo mostra as frases espalhadas por sua roupa: “Eu ti amú”, “Polìssiàl Fédêéràl Séléstiàl”, “Ezércitu de Deeus”.
Não me conta a origem da sua missão. São várias histórias que se escuta em Boa Vista. A mais consistente conta que ele era um policial, que matou uma criança com um tiro, o que fez com que saísse de si e ao voltar se encontrasse transformado e consciente de sua tarefa divina: ajudar a transformar o homem através da paz e do amor.
E como quem é da paz não se nega a uma fotografia. Consigo várias enquanto escuto “Com uma máquina desta já sei que vão para o exterior. Pode levar! Leve a mensagem da Paz e do Amor!” E é isso que fiz. A mensagem é para vocês.
1 comment 27 Março, 2009
Escadaria Selarón, e a força de um único homem
O Rio de Janeiro continua lindo. E como toda metrópole, tem alguns segredos guardados, muitas vezes mais conhecidos pelos turistas do que pelos próprios brasileiros. Um destes segredos está ali, entre a Lapa e Santa Tereza, região do centro, famosa pelo antigo Aqueduto da Carioca, inaugurado em 1750, hoje conhecido como Arcos da Lapa, que é percorrido por um bondinho, também ele reminiscência de tempos em que se amarrava cachorro com lingüiça.
Pois ali, encravado em uma área onde é tão fácil encontrar turistas quanto no aeroporto, se esconde a Escadaria Selarón. Tudo bem se você nunca ouviu falar dela, e nem sabe o que é esse tal de Selarón. Na verdade, Selarón é o nome de um chileno daqueles “malucos-beleza”. Artista plástico que rodava o mundo, se encantou com a boêmia da Lapa, e aqui ficou. Como não tinha muito o que fazer, mas a criatividade estava mil, começou a transformar banheiras em jardineiras, ao redor de uma escadaria que leva ao convento de Santa Teresa. Bonitinho, mas não deu ibope. Aí ele começou a revestir os 215 degraus da escada com azulejos. Sim, 215 degraus!
Como o lugar é point de descolados, bacaninhas e diferentes de todo o mundo, Selarón fez fama e virou ponto turístico. Muitos dos azulejos foram feitos por ele, com técnica de cerâmica, mas outros vieram de todos os lugares do globo. Encontrei azulejos portugueses, americanos, gregos, italianos, japoneses, russos, australianos e até seilaoques (uma língua esquisita, não entendi nada…) .
Selaron, de chapéu e bermuda vermelha, dando entrevistas.
A escadaria tem duas áreas bem definidas. A central é predominantemente verde-amarela, uma homenagem a pátria adotiva. As laterais são vermelhas, mesma cor das bermudas, sandálias e bicicleta que o artista bigodudo sempre usa. Coisa de artista.
Banheiras-floreiras cobertos de azulejos.
É bonito lá, mas o mais incrível é imaginar o poder de transformação que um único homem é capaz de ter. É lógico que nós também temos este poder, ainda que não nos demos conta. Um único homem, com paciência, boa vontade, trabalho e uma idéia simples, se transformou, não só em uma atração turística em um lugar cheio de atrações como o Rio, como em uma referência mundial. E nós, será que não conseguimos fazer o mesmo? Nos transformarmos em uma referência ao menos para quem está próximo de nós? Pausa para a reflexão.
Add comment 2 Dezembro, 2008
Muito prazer, Dr. Marabá
Por fim uma história que passou-se com uma índia. Os Kaiapós costumam perguntar meu nome, e ao saber comentam que é “nome de cidade”, tendo como referência a cidade de Altamira, uma das maiores do estado. Outro dia a índia não teve dúvidas e me chamou de Dr. Marabá, nome da maior cidade do sul do Pará. O raciocínio estava certo, ela só trocou a cidade.
E já que estou falando de nomes dos Kaiapó, alguns nomes que descobri recentemente em Boa Vista. Atendi três pacientes com nomes “bíblicos” que não conhecia: Habacuque, Sofonias e Êxodo.
Atendi também uma menina chamada Maclynny. A mãe me contou que havia feito ultrasonografia que mostravam ser um menino, que ganharia nome de artista: David Maclynn. Como nasceu menina, saiu o David e virou Maclynny.
Por fim atendi Vorkman, que imagino ter saído de algum filme de ficção científica!
Add comment 26 Novembro, 2008
Retratos Yanomami
Esta menina está bem enfeitada. Normalmente eles não usam tantos enfeites…
… o mais comum é somente um cordão, como este menino. Normalmente de miçanga.
Add comment 7 Outubro, 2008
Personagens – Cacique Kagnonk e a mudança em seu mundo
Nesta aldeia mora o Cacique Kagnonk. Ele é hoje, nesta região, respeitado como o principal dos “caciques velhos”, aqueles que já não tem seu posto, mas mantém a moral e o respeito de todos. Pela identidade são oitenta e três anos, mas a idade não é precisa, pois quando nasceu “não existiam brancos (kuben)”. Seu primeiro contato com um foi “quando era deste tamanho”, me diz fazendo com o braço um gesto que parece indicar uns dez anos de idade. Conversando comento: “E como o mundo mudou, não cacique?” Ele me responde com sua expressão sempre serena de quem parece já ter vivido de tudo: “É doutor… Depois só índio matando kuben e kuben matando índio”.
Comentar o que? Os brancos chegaram “passando o rodo”. Para “amansar” (termo usado na época e hoje ainda em uso pelos mais antigos, junto com o termo “índio brabo”) os mais bravos, dentre eles os aguerridos Kayapó, uma missão foi construída onde hoje é a cidade de Conceição do Araguaia, a margem do majestoso rio que lhe batiza. Segundo o cacique Kagnonk, lá era “terra de índio”, com muitos Kayapó e com Karajás nas praias mais distantes. Nesta época os mebengokré eram divididos em três grupos. Dois optaram por não manter contato com os brancos. Destes um originou os Xikrin e outro os Kaiapó, que se ramificaram em vários pequenos grupos (o famoso Raoni é de um destes grupos, os Txukahamae). O terceiro grande grupo, Irâ’ Ãmranh-re, de cerca de 3000 índios, preferiu o contato pacífico do que se aventurar pelo sertão, fugindo e lutando. Foram extinto pelas doenças de branco e pela “pacificação”. Destino semelhante a inúmeros povos em todo o Brasil.
Onde hoje é a igreja principal de Conceição, antes era a “maior de todas as casas do Guerreiro”, segundo o cacique. Talvez as lembranças de uma distância distante tenham colocado uma lupa de nostalgia e ampliado o tamanho e grandeza desta “casa do guerreiro”, mas esta era a tática da igreja. Desmoralizar, destribalizar, substituindo os valores tradicionais pelo valor cristão. A igreja na casa do guerreiro diz: “nós somos maiores do que você, e viemos substitui-los”. Sem uma base própria, incorporando ideais pervertidos de igualdade, fraternidade a amor – afinal, isso valia apenas para os brancos, mas não para os indígenas, que podiam, e deviam, apenas ceder: suas terras, seus filhos, suas mulheres. Para muitas etnias restou apenas o caminho da marginalização e do preconceito do pior tipo: o auto-preconceito. Auto-estima baixíssima, só hoje recuperada por esforços de antropólogos e indigenistas que reconhecem o valor de sua individualide e os anos de destruição física, material e moram a que os índios do Brasil foram submetidos.
Guerreiros do futuro. Como será o mundo que vão herdar?
Add comment 3 Abril, 2008
Personagens – Marcelo, o hippie evangélico
Add comment 9 Setembro, 2006
Personagens – Chico Olímpio
Add comment 6 Março, 2006
Personagens Amazônicos – Dona Maroca
Add comment 15 Agosto, 2005







