Mamãe Bekwoikotiiiiiiiiiiii

8 Janeiro, 2009

Bekwoikoti é uma senhora vaidosa. Nos seus quase oitenta anos, Bekwoikoti, também chamada de Luiza adora contar histórias, usar enfeites e gritar com uma voz aguda para qualquer um que fala seu nome errado: “Bekwoikotííííííííí”. Impossível não aprender. Como apareceu um tumor no pé desta senhora, a encaminhei ao cirurgião, que ao examinar marcou uma biópsia. No dia do exame estava tensa, escolheu seu melhor vestido e trocou de enfeites três vezes até escolher um que aprovasse, com a aprovação também da técnica de enfermagem que a acompanharia. Bem humorada, Luzia sempre falava de seus problemas rindo, como se a vida fosse uma alegria maior do que as dores de sua idade. Em uma visita a Aldeia Las Casas, soube que Bekwoikoti estava por lá, e mesmo já sendo tarde (mais de sete horas da noite) resolvi visitá-la antes de ir embora desta que é a única aldeia onde chegamos de carro. Como estava chovendo em ritmo amazônico, optamos por ir de Toyota até a casa da senhora, do outro lado da aldeia. Lá dentro da pequena cabana, estavam ela e a filha. A filha cuidando da fogueira na qual Bekwoikoti sem roupa alguma se esquentava, sentada sobre um fino cobertor no chão. Consultei, falei do problema do pé e prometi enviar vitaminas. Nese momento ela começou a falar, iniciando o choro típico da mulher Kaiapó: alto, agudo, em uma ladainha incessante. Não entendi nada, mas o meu tradutor e a filha encheram os olhos de água, e logo entendi que deveria ser algo emocionante. Depois ele traduziu dizendo que ela dizia que eu saia sob chuva para cuidar dela, que isso era uma coisa que nem os filhos fazem por ela, então eu agora era mais do que um filho para ela e que eu podia chamar ela de “mamãe Bekwoikoti” e agora ela me chamaria de “filho Doutor” e por aí vai. Fiquei realmente sentido, pois fui atendÊ-la com carinho, ainda que soubesse que pouco poderia faer por ela.

Assim que saímos, fomos nós tentar sair com o carro sob a chuva torrencial que não havia cessado um instante e… lama e… rodas atoladas. Saímos para ver o que fazer e logo fomos ajudados por dois outros índios que logo se somaram a mais outros dois. Nós seis após mais de uma hora de esforços sob uma chuva que não parou um instante, atolados na lama tivemos que cavar um buraco sob cada roda, preparar um “macaco baiano”, levantar o carro, calçar cada roda com pedras e finalmente sair do buraco. Acabou o problema? Não, pois o caminho estava interrompido com um rio que havia subido demais. Demos a volta por um caminho alternativo e… outro riozinho havia se tornado caudaloso… Só restou voltar para a aldeia e esperarmos mais três horas para podermos ir embora com a chuva mais fina, e ainda molhado e todo sujo de lama.

Tem gente que pode dizer que isso foi literalmente um “programa de índio”, mas foi um programa que me fez sentir-me tão vivo, que valeu tudo. Os problemas são importantes, pois nos permitem achar soluções que são sempre gratificantes. Gente que não tinha nada que estar sob a chuva foi lá ajudar a desatolar o carro, mostrando que sempre tem um anjo que surge quando precisamos. Se atolei na aldeia, sei que valeu, pois deixar a velhinha feliz foi uma ótima causa. E lá fui eu com histórias para contar para os netos e os amigos…

Ainda bem que vocês tem paciência para ler os meus “causos”…

2008 01 eu pajé Delegado e esposa GRT (4) 2008 01 Kadoj e AIS Takakmakoro GRT

Embora eu seja pediatra, na aldeia sempre temos que atender os Kubengêt (idosos).

Na primeira foto eu examino a esposa do Pajé Delegado, de Gorotire. Na segunda o Agente de Saúde Takakmakoro com a kubenget Patoj

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